– A gente fica um pouco aterrorizado para falar de si. Eu sempre tive muita coragem na minha vida. Sempre enfrentei. Essa capacidade de abrir caminhos vem dos meus avós.
Elaine Del Bel começa a entrevista mostrando uma foto antiga, digitalizada no computador. Em preto e branco, um tradicional registro da grande família italiana, com mulheres de corpo coberto por saias longas e blusas de manga comprida.
Seus avós deixaram a Itália em busca de uma vida melhor. Chegaram ao Brasil sem nada, e ela guarda as lembranças dessa luta:
– Meu avô dizia que os médicos tinham medo de examinar os italianos. Crianças morriam por sapinho, porque não tinham atendimento médico.
Foram conquistando a vida aos poucos, com luta suada. E passando a força à frente.
Sua mãe foi a única da geração dela a ter uma formação superior, motivada pelas dificuldades familiares. O pai de Elaine era motorista de caminhão e, com três filhas pequenas, as contas da família estavam sempre apertadas. A mãe decidiu, então, terminar o curso normal de professores, que existia na época, depois fez uma formação em Biologia, estudando aos finais de semana, e começou a dar aulas.
– Ela foi uma lutadora. Nos ensinou a ter amor no que a gente fazia.
Elaine já nasceu com garra na “bagagem genética”, como diz.
De família simples, cresceu em um sítio de Santa Rita do Passa Quatro, cidade que, hoje, conta com 27.514 habitantes. Estudou em escola pública e pagou a faculdade de Biologia, na Barão de Mauá, em Ribeirão Preto, trabalhando como auxiliar de enfermagem e viajando todo dia. O sonho era cursar Medicina, mas precisou escolher o curso possível.
Se encantou pela área e pela pesquisa logo de início. Diz que sempre ostentou boas notas, pelo gosto de estudar.
Conseguiu abrir as portas da USP com muito empenho. E foi preciso, então, deixar a casa da família e encarar o desafio de morar sozinha em uma cidade grande, se sustentando com uma bolsa de iniciação científica. Aos 29 anos, já tinha o Doutorado. Passou no concurso para professora em Fisiologia na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo em 1995 e não se contentou em ser mais uma docente na equipe.
Pesquisou, pesquisou e continua a pesquisar. Conquistou o Laboratório de Fisiologia Molecular com seus projetos de pesquisa.
Os estudos que orienta avançaram nos caminhos para encontrar uma forma de controle do Parkinson, através de um antibiótico simples. Esperança para quem sofre da doença que aprisiona “o indivíduo dentro de si”, em suas palavras.
Hoje, ela é presidente da Federação de Sociedades de Neurociência da América Latina, do Caribe e na Península Ibérica (Falan).
Para honrar as portas que conseguiu abrir, decidiu ser também um caminho de abertura, abraçando o maior número de orientandos que lhe procurassem desde quando assumiu o cargo de docente. Estima, então, que já orientou mais de 120 estudantes mulheres e 70 homens.
No mês passado, colheu, mais uma vez, os frutos dessa atuação humana.
Foi a primeira mulher da América do Sul a receber o prêmio Bernice Grafstein Award for Outstanding Accomplishments in Mentoring, concedido pela Society for Neuroscience (SfN), nos Estados Unidos, a maior organização mundial de cientistas e profissionais da saúde que se dedicam a entender o sistema nervoso central. Como valorização pela premiação que recebeu fora do país, também foi homenageada pela USP, em um programa que valoriza as mulheres.
O grande número de orientandos foi o que levou à premiação internacional.
– Eu fiz faculdade particular, não era uspiana e fui muito discriminada por isso. Estou aqui porque as pessoas me abriram as portas. Eu decidi, então, que daria uma chance a quem batesse na minha porta.
No dia de receber a homenagem, essa história de luta que começou lá em seus bisavós esteve com Elaine. Mostra, orgulhosa, a placa que recebeu de Bernice, que dá nome ao prêmio e, assim como ela, é uma mulher em busca de espaço e respeito.
– Nós precisamos passar para as pessoas que todo mundo tem direito ao saber, ao conhecimento. Quando você aprende alguma coisa, isso é seu. Ninguém tira de você. E é só com conhecimento que nós vamos conseguir um povo independente, que pode andar de cabeça erguida.







