Sheila – Exemplo de Vida
por Marinela Carniato
Minutos atrás estava conversando com meu amigo italiano.
Falávamos sobre a vida, pessoas e enfim, todos aqueles assuntos que nos tornam humanos.
Do nada, lembrei-me de ter lido, muitos anos atrás, a transcrição de um anuncio de jornal, onde uma prostituta oferecia seus serviços. O texto era mais ou menos o seguinte: “Sheila – Lindíssima, irresistível, seios fartos, bumbum de ouro, corpo escultural, nível universitário, poliglota, educadíssima, super. carinhosa. Tenho tantas qualidades que nem sei porque é que fui virar puta.”
Rimos a beca!
Enfim chegamos`a conclusão de que o texto era uma lição de humanidade!
Começamos a divagar sobre as coisas que somos obrigados a fazer na vida, quando a necessidade nos obriga ou quando tendo tantas qualidades, não conseguimos fazer as coisas que sonhamos fazer pelos meios que queríamos.
Quem já não se sentiu meio Sheila nessa vida ou conhece alguém que tendo inúmeras qualidades, inteligente, carinhoso, estudado, atleta e poliglota nem sabemos explicar porque `e um chato???
Pois `e minha gente! Como diria Vinicius de Moraes, são demais os perigos dessa vida…
E quem explica, por que uma mulher com tantas qualidades vira puta??? Aliás, quem disse que as putas não podem ter todas essas qualidades? E quem disse que um grande chato, daqueles espanta roda, não pode reunir muito mais qualidades que imaginamos?
Acontece que alguns defeitos sobrepujam as qualidades, sejam elas quais forem, ou pelo menos, assim pensamos…
E` como alguém que mata. Alguém que mata `e má pessoa? Não… simplesmente `e humano.
Recordo muito bem da minha época do Curso de Direito na Universidade de Ribeirão Preto. Nas aulas de direito penal, nosso Professor Quartin dizia que entregava seu pescoço com tranquilidade para um preso fazer sua barba. Horrorizados perguntávamos `a ele como podia confiar seu pescoço a um homicida e ele pacientemente nos explicava que existiam classes e classes de homicidas. A questão toda então era saber a qual homicida escolher dar o pescoço? Sim, esse era o segredo segundo ele. O homicida passional, este era o seu predileto… Com certeza não faria mal, nunca mais, a uma mosca na vida! Diferente do homicida serial, mas este, segundo os critérios científicos, `e um doente.
Vejam bem a que nível de entendimento humano tinha chegado nosso Professor Quartin! No alto de seus quase 80 anos e muitos e muitos anos como diretor de um complexo penitenciário, já tinha visto dos homens seus piores delitos e suas melhores qualidades. Tinha aprendido a entender a alma humana! Para ele, prostitutas, homicidas, delinquentes, ladroes, todos, sem exceção, tinham seus defeitos e suas virtudes… Todos, sem exceção, eram dignos de serem tratados e respeitados, tinham o direito de pagarem pelos seus pecados. Direito de pagar pelos próprios pecados? Isso lá `e um direito? Sim, dizia ele, pagar pelos próprios pecados também `e um direito da raça humana. O mais digno deles. O que nos regenera e nos torna ao convívio, tal como a história do filho prodigo.
Claro que ninguém aqui faz apologia ao crime.
O que se discute `e a complexidade da vida e o tanto que devemos nos abster de tentar julgar o próximo. As condutas que são passiveis de punição dentro de um contexto social para o bom funcionamento da sociedade são puníveis por convenção, para vivermos dentro de uma certa segurança e razoabilidade. Todo o resto? Discutível.
Todos somos Sheilas, chatos, detentores de qualidades e defeitos.
Somos todos prostituidos e “ carne de pescoço” em algum sentido por necessidade ou opção… Criminosos ou contraventores em menor ou maior escala, buscando nessa vida nada mais que um sentido e por meio de nossas tentativas e falhas encontrarmos a verdadeira perfeição!






