originalmente publicado em: g1.globo.com
Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp de Araraquara (SP) desenvolveu um dispositivo semelhante a uma bombinha de asma para tratamento inovador contra a tuberculose.
Segundo a pesquisa, o medicamento inalável é mais potente e eficaz, com potencial de substituir a terapia oral utilizada atualmente.
Com investimento de cerca de R$ 14 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e apoio do Sistema Único de Saúde (SUS), o objetivo é desenvolver o dispositivo nos próximos três anos.
Nomeado de “Inova TB”, o projeto propõe uma nova estratégia para o tratamento da tuberculose aproveitando os fármacos já utilizados contra a doença em um sistema que combina partículas em escala nanométrica e micrométrica com funções específicas.
A pesquisa é realizada junto aos pesquisadores Andréia Bagliotti Meneguin, Leonardo Miziara Barboza Ferreira, Lucas Amaral Machado e Marlus Chorilli, docentes da FCF.
Tratamento de baixa adesão
O estudo explica que hoje muitos pacientes com tuberculose desistem do tratamento tradicional que é longo e com efeitos colaterais.
Uma pessoa em tratamento precisa ingerir até 12 comprimidos por dia, durante seis, doze ou até 24 meses, o que acaba resultando muitas vezes em baixa adesão.
Nesses casos, o tempo de tratamento sobe para, no mínimo, dois anos, e a chance de cura diminui para cerca de 50%.
No novo modelo, os fármacos seriam veiculados por meio de micropartículas que atingiriam diretamente os pulmões, local onde a bactéria causadora da tuberculose se instala e se protege dentro de estruturas chamadas granulomas.
Os pesquisadores explicam que a ideia inovadora de tratar a tuberculose por via inalatória foi determinante para que o projeto se destacasse em um edital altamente competitivo.
O projeto conquistou a 9ª colocação no programa “Mais Inovação Brasil Saúde – ICT” da FINEP no final de 2023, e concorreu com mais de 200 propostas em todo o país.
Doença letal
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a tuberculose voltou a ser a doença infecciosa que mais mata no mundo.
Em 2023, foram 10,8 milhões de novos casos. No Brasil, o índice de infecção é quase seis vezes superior à meta estipulada pela OMS.
Nanotecnologia
O diferencial da proposta está no uso de nanopartículas feitas de compostos naturais produzidos pelos próprios pulmões (surfactantes pulmonares) capazes de transportar os medicamentos até o foco da infecção.
Essas nanopartículas são encapsuladas dentro de estruturas maiores, em escala micrométrica. “Elas precisam ter um tamanho ideal: pequenas o suficiente para serem inaladas, mas grandes o bastante para não serem eliminadas logo na expiração”, detalhou a professora.
Segundo os pesquisadores, a administração dos medicamentos com a ajuda de substâncias naturais vindas dos pulmões torna a proposta ainda mais promissora.
Além disso, como a nova tecnologia idealizada pelos docentes trabalha em escala nanométrica, ou seja, mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo, ela permite um nível de precisão que os tratamentos tradicionais não conseguem alcançar.
A a equipe da FCF pretende usar a nanotecnologia para tornar o tratamento da tuberculose mais direto, eficaz e seguro, algo que pode representar um avanço significativo na forma como combatemos uma das doenças infecciosas mais persistentes do mundo.
Jornada científica
Apesar de estar na etapa inicial, a pesquisa tem fases bem delimitadas, que envolvem estudos físico-químicos, avaliação da atividade antimicrobiana em laboratório e testes em modelos animais. Somente após essa etapa será possível analisar a viabilidade clínica e considerar o início de ensaios em humanos.
De acordo com o professor Leonardo Miziara Barboza Ferreira, a expectativa é de que a tecnologia desenvolvida possa futuramente ser aplicada a outras doenças com relevância em saúde pública, como Covid-19, pneumonias, asma e outras condições crônicas.
O projeto também terá impacto direto na formação de recursos humanos, com a previsão de bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado.







