Tem gosto pra tudo quando o assunto é colecionar coisas. Em tempos de Copa, alguém poderia lembrar as famosas figurinhas, que ressurgem das cinzas de quatro em quatro anos. Uns curtem camisas de times ou flâmulas; outros guardam selos raros, e por aí vai uma lista infindável.
Como cada louco tem sua mania, a minha, eu confesso, é colecionar histórias. Sobretudo, de tipos memoráveis, por bizarrice ou por se tratar de figuras ímpares da vida local – algumas lendas de carne e osso como Lepera e Golfeto, amigos queridos que já se foram, viraram crônicas em meus livros.
Pensei em tudo isso ao dar de cara, numa manhã dessas, com o Schubert Persin, figuraça que vive a perambular pelas ruas do Centro. O problema dessa parte do dia, ele me diz, malícia atrás do sorriso no rosto, é que os botecos acordam mais tarde e custam a abrir antes do meio-dia – sem ter onde beber uma gelada, há que se arrumar algo para fazer até que comecem a servir.
Foi o que, de certo modo, levou o Schubert a se tornar espécie de semi-deus na várzea da cidade que escolheu para viver, Ribeirão Preto, ao deixar para trás sua Santa Rita do Passa Quatro, terra do compositor do Tico Tico no Fubá, Zequinha de Abreu. Nos terrões onde se disputa o legítimo futebol das peladas, o sujeito de nome gringo é mais conhecido e admirado que seu conterrâneo famoso e é cultuado meio mundo afora.
Schubert, que um dia largou um empregão de décadas num banco que era público para virar locutor de rádio (passou por todas elas na cidade!) foi se engraçar com o amadorzão do esporte bretão. Sua página nas redes sociais – No Pique do Amadorzão – faz tremendo sucesso em gramados e terreiros da periferia. Em vez de irradiar jogos, como muitos fãs ainda pedem, ele escolheu coberturas menos espalhafatosas, clicando lances e figuras do mundo da bola não profissional.
O próprio Schubert já chutou bola na Terra Natal Mais magrelo do que é hoje, defendeu as cores dos clubes da cidade. Hoje, vive para dar brilho e luz aos craques varzeanos. Humilde, diz que a página que alimenta diariamente no Facebook recebe, em média, 800 mil visualizações por semana. Em dias de jogos nos buracões da cidade, garante que leva meia hora para atravessar alguns poucos metros entre arquibancadas simples. Todo mundo quer conversar, perguntar do seu passado glorioso, sugerir pauta.
Quando perguntam porque faz isso se não ganha vintém com isso – ou “monetizando”, como diriam os modernos – o sujeito de nome difícil que a periferia aprendeu a pronunciar simplesmente dá de ombros:
– Olha, ser parado, já idoso e aposentado, no meio da rua e ter o nome, que não é fácil, lembrado e reverenciado pelas pessoas simples dos bairros não tem o que pague…
Esse é o bom e velho Schubert cansado de guerra, que ainda sonha, enquanto peregrina de um boteco a outro na cidade, encontrar o mecenas caipira que vá bancar ao menos uns poucos exemplares do seu novo livro, que traz histórias pitorescas da sua Santa Rita – a propósito, padroeira de causas impossíveis… Galeno Amorim – Jornalista, escritor







