Por Ronaldo Barioni Eluf
Presidente Municipal do MDB de Santa Rita do Passa Quatro
As eleições chegaram ao fim, e um movimento já conhecido de pleitos anteriores voltou a ganhar força com extrema intensidade: o voto puramente ideológico, impulsionado e pulverizado por vídeos de “lacração” e conteúdos produzidos sob medida para as redes sociais. Trata-se do fenômeno dos chamados “deputados influencers” — figuras que buscam a preferência do eleitorado sem a contrapartida de um trabalho comunitário, regional ou parlamentar real.
Esses parlamentares de tela alimentam-se do contexto polarizado. Precisam da beligerância contínua para manter suas redes sociais ativas com discursos inflamados, os quais, na prática, não resolvem a vida dos municípios e tampouco solucionam os problemas concretos enfrentados diariamente pela nossa população.
Com votações expressivas espalhadas por todo o estado — alcançando por vezes milhões de votos —, esses parlamentares atuam como verdadeiros “puxadores de votos”. Pelo sistema proporcional, arrastam consigo diversos outros deputados dispostos em listas partidárias organizadas estrategicamente. São candidatos apadrinhados que o próprio partido escala sabendo que terão votações inexpressivas, mas que terminam eleitos na esteira da popularidade digital do influencer principal. O eleitor, em muitos casos, sequer sabe quem ajudou a eleger.
O risco maior e mais danoso dessa dinâmica é o esvaziamento político de nossa região. Ao pulverizarmos os votos municipais em figuras virtuais, arriscamo-nos a perder lideranças autênticas — aquelas que conhecem a nossa realidade e que estão fisicamente presentes quando a cidade mais precisa, seja para a conquista de emendas e recursos, para a articulação política ou para a representação direta junto aos governos estadual e federal. Se olharmos com atenção para os últimos anos, veremos que a nossa região vem enfrentando uma perda progressiva de representatividade efetiva.
Os números das urnas de 2026 em Santa Rita do Passa Quatro exemplificam claramente essa divisão entre a força da representação regional e o avanço da pulverização ideológica e digital:
Votação para Deputado Estadual em Santa Rita do Passa Quatro (2026)
- Léo Oliveira (Eleito – MDB): 19,83% (2.713 votos)
- Delegado Olim (Eleito – PP): 14,23% (1.947 votos)
- Rômulo Rippa (Não eleito – PSD): 8,96% (1.226 votos)
- Eduarda Campopiano (Eleita – PL): 7,80% (1.067 votos)
- Dra. Cristiany (REPUBLICANOS): 2,08% (285 votos)
- Capitão Mosart (Eleito – PL): 1,90% (260 votos)
- Carlos Giannazi (Eleito – PSOL): 1,86% (254 votos)
- Isaac Antunes (Eleito – PL): 1,83% (250 votos)
- Luiz Fernando (Eleito – PT): 1,53% (210 votos)
- Rafa Zimbaldi (Não eleito – UNIÃO): 1,45% (198 votos)
Votação para Deputado Federal em Santa Rita do Passa Quatro (2026)
- Baleia Rossi (Eleito – MDB): 24,00% (3.344 votos)
- Lucas Pavanato (Eleito – PL): 11,98% (1.669 votos)
- Carlos Sampaio (Eleito – PSD): 10,74% (1.496 votos)
- Renato Bolsonaro (Eleito – PL): 4,34% (605 votos)
- Erika Hilton (Eleita – PSOL): 3,26% (454 votos)
- Priscila Enfermeira (PSDB): 2,32% (323 votos)
- Saulo Pedroso (Eleito – PSD): 2,00% (279 votos)
- Paulo Teixeira (PT): 1,79% (250 votos)
- Sâmia Bomfim (Eleita – PSOL): 1,49% (208 votos)
- Kim Kataguiri (Eleito – MISSÃO): 1,47% (205 votos)
Diante desses dados, cabe a pergunta: quanto de recurso orçamentário será efetivamente destinado a Santa Rita do Passa Quatro por esses parlamentares com forte apelo digital? Quantas agendas essenciais para as demandas da nossa infraestrutura, saúde e educação serão articuladas por eles nos gabinetes de São Paulo e Brasília? Teremos quatro anos pela frente para observar quem realmente estará ao lado do nosso município e quem apenas levou nossos votos para aparecer esporadicamente ou interagir exclusivamente pelas redes sociais.
Como contrapartida necessária a esse modelo, avança no Congresso Nacional o projeto de lei que institui o Voto Distrital Misto. Essa mudança na legislação delimita a atuação parlamentar por regiões geográficas específicas, garantindo presença real, vínculo local direto e capacidade efetiva de cobrança por parte dos moradores. Ganhar uma eleição no ambiente virtual é completamente diferente de governar e legislar com responsabilidade. A boa política exige diplomacia, capacidade administrativa, diálogo contínuo e a disposição para sentar à mesa de negociações. Não se constrói o futuro de uma cidade com recortes de vídeos, dancinhas, gritaria ou radicalismo ideológico. A verdadeira representação é aquela que transforma votos em conquistas reais para a nossa gente.







