De Santa Rita para a literatura e o cinema: a história de Rubens Francisco Lucchetti

Santa Rita do Passa Quatro é berço de um dos grandes nomes da literatura popular e do cinema de terror brasileiro. Rubens Francisco Lucchetti, conhecido como R. F. Lucchetti, nasceu no município em 29 de janeiro de 1930, filho de Américo Lucchetti e Assumpta Baldassarre. Sua origem familiar está registrada no levantamento de descendentes italianos publicado no site da Prefeitura.

Conhecido como “Papa da Pulp Fiction” no Brasil, dedicou mais de oito décadas à criação de histórias. Escreveu contos, romances, roteiros de cinema, histórias em quadrinhos, programas radiofônicos e textos para televisão.

Infância e vínculos com Santa Rita

Seu pai, Américo, era fotógrafo profissional e calígrafo. Ainda criança, Lucchetti mudou-se com a família para São Paulo, onde estudou no Grupo Escolar Tomas Galhardo, na Vila Romana. Frequentou a escola até o quarto ano primário e desenvolveu sua formação principalmente como autodidata, por meio da leitura e da prática.

Apesar da mudança, preservou lembranças da cidade natal. Em entrevista à revista Revide, recordou a casa próxima à Praça da Matriz e uma temporada de aproximadamente seis meses na residência de uma tia, durante a adolescência.

Entre as memórias estavam os encontros com os primos na alfaiataria de um tio e as visitas à Igreja Matriz, onde observava Nicolau José Biagimi retocar as pinturas sacras. Seu pai também lhe contava ter sido colega de escola de Zequinha de Abreu.

Primeiro conto aos 12 anos

A carreira começou em 1942, quando publicou “A Única Testemunha”, no jornal de bairro O Lapiano, em São Paulo. Tinha apenas 12 anos.

A leitura de Edgar Allan Poe, especialmente dos contos “O Gato Preto” e “O Coração Revelador”, influenciou seus primeiros passos. Histórias policiais e personagens como O Sombra também alimentaram seu interesse pelo mistério.

Aos 13 anos, começou a trabalhar como auxiliar em uma loja de autopeças de parentes de sua mãe. Ao longo da vida, conciliou a escrita com diferentes ocupações, passando por funções de almoxarife, chefe de escritório, comerciante e gerente de cinema.

Jornalismo e rádio em Ribeirão Preto

A partir de 1948, passou a colaborar com jornais de Ribeirão Preto, entre eles Diário da Manhã, A Tribuna, A Cidade, O Diário, Diário de Notícias e A Palavra. Publicava contos, poemas, folhetins e artigos sobre cinema e literatura.

Entre 1953 e 1962, foi proprietário da Monroe Auto Peças, na Avenida Saudade. Mesmo à frente do comércio, continuou a desenvolver sua produção artística.

No rádio, criou, em 1956, atrações para a PRA-7 Rádio Clube de Ribeirão Preto, a pedido de Aloysio Silva Araújo. Entre elas estavam o Grande Teatro de Aventuras, o Grande Teatro A-7 e o Grande Teatro de Mistério, levando suas narrativas aos ouvintes.

Cinema de animação e atividades culturais

Lucchetti foi um dos fundadores do Clube de Cinema de Ribeirão Preto. No início da década de 1960, realizou experiências de animação com o artista plástico Bassano Vaccarini, utilizando técnicas como desenhos e pinturas diretamente na película.

Em 1961, trabalhou como gerente do Cine Centenário, em Ribeirão Preto. Também organizou atividades culturais e escreveu para jornais da capital paulista.

Em 1965, coordenou o primeiro Festival Internacional de Cinema de Animação realizado em São Paulo. Um de seus trabalhos experimentais havia recebido menção honrosa em Annecy, na França, em 1963, conforme registrado na proposta de homenagem apresentada pela Câmara de Santa Rita.

Os quadrinhos e as muitas assinaturas

Em 1964, seu conto “A Única Testemunha” ganhou uma adaptação para os quadrinhos, ilustrada por Paulo Hamasaki e publicada na revista O Corvo.

Lucchetti escreveu para desenhistas como Nico Rosso, Eugênio Colonnese, Rodolfo Zalla, Julio Shimamoto e Flávio Colin. Sua produção passou por revistas como A Cripta, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Calafrio e Mestres do Terror.

Muitos leitores tiveram contato com suas histórias sem conhecer seu nome verdadeiro. Ele utilizou diversas assinaturas, como Theodore Field, Terence Gray e Mary Shelby, registradas entre seus pseudônimos na Biblioteca Nacional.

A quantidade de publicações varia conforme o levantamento e o período considerado. Em reportagem de 2022, o Universo HQ atribuiu ao autor quase 1.700 livros, muitos lançados sob pseudônimos.

A parceria com José Mojica Marins

Em 1966, iniciou a colaboração com José Mojica Marins, criador de Zé do Caixão. O encontro abriu um capítulo importante de sua trajetória no cinema brasileiro.

Além de roteiros cinematográficos, escreveu para atrações televisivas como “Além, Muito Além do Além” e “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”.

Entre os filmes associados à parceria estão “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, “Delírios de um Anormal” e “O Despertar da Besta”.

Ivan Cardoso e o encontro entre terror e humor

Outra parceria marcante foi com Ivan Cardoso, diretor conhecido pelo “terrir”, combinação de terror e humor.

Lucchetti escreveu roteiros de “O Segredo da Múmia”, “As Sete Vampiras”, “O Escorpião Escarlate” e “Um Lobisomem na Amazônia”. Sua participação nesses trabalhos ampliou a presença de suas histórias no cinema fantástico nacional.

A biografia em quadrinhos de Silvio Santos

Sua produção também incluiu “Silvio Santos — Vida, Luta e Glória”, biografia em quadrinhos ilustrada por Sérgio M. Lima.

A obra, autorizada pelo apresentador, foi relançada em 2017 e aparece entre os trabalhos destacados na Moção de Louvor proposta na Câmara Municipal de Santa Rita.

Trabalho editorial e novas publicações

Durante os anos 1970, Lucchetti atuou como editor na Cedibra, ligada à editora espanhola Bruguera. Produziu narrativas de horror, mistério e ficção científica, incluindo a série “Equipe Aquarius”, assinada com o pseudônimo K. L. Munro.

Nas décadas seguintes, continuou publicando e revisitando sua obra. Entre os projetos estiveram “Os Extraordinários”, com releituras de clássicos da aventura e do fantástico, e novas edições de seus romances.

Sua trajetória foi tema do livro “Conversações com R. F. Lucchetti”, de Rafael Spaca, publicado em 2015, e do curta “R. F. Lucchetti, a Multiplicidade da Linguagem”, lançado em 2016.

Em 2018, publicou “Poemas de Vampiros”, organizado por seu filho Marco Aurélio Lucchetti, com ilustrações de Anasor.

Família e vida no interior

Lucchetti foi casado durante 54 anos com Teresa Pereira Lima, falecida em 2011. O casal teve o filho Marco Aurélio Lucchetti, professor universitário e escritor, também dedicado ao estudo dos quadrinhos e do cinema.

Ao longo da vida, o autor morou em São Paulo, Ribeirão Preto e Rio de Janeiro. No final de 1995, estabeleceu-se em Jardinópolis, onde continuou escrevendo.

Reconhecimento e memória santarritense

Sua trajetória recebeu distinções no rádio, no cinema e nos quadrinhos, incluindo reconhecimento pelo roteiro de “O Segredo da Múmia”, no Festival de Gramado de 1982, e o Troféu HQ Mix de Grande Mestre, em 2013.

Em Santa Rita do Passa Quatro, o vereador Kleber Alessandro Borotto apresentou, em 2 de outubro de 2017, a Moção de Louvor nº 008/2017, destacando sua contribuição à cultura brasileira. O documento disponível registra a proposta da homenagem.

Uma vida dedicada à imaginação

Rubens Francisco Lucchetti faleceu em 4 de abril de 2024, aos 94 anos, em Ribeirão Preto.

Deixou uma obra distribuída por livros, revistas, quadrinhos, rádio, televisão e cinema. Para Santa Rita do Passa Quatro, sua trajetória representa um capítulo expressivo da memória cultural: o menino nascido na cidade tornou-se um autor cujas histórias chegaram a leitores e espectadores de várias gerações.Fontes: material biográfico encaminhado à redação; Prefeitura e Câmara Municipal de Santa Rita do Passa Quatro; Biblioteca Nacional; revista Revide; Folha de S.Paulo; Universo HQ.

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